”“Não compartilho meus pensamentos achando que vou mudar a cabeça de pessoas que pensam diferentemente. Compartilho meus pensamentos para mostrar às pessoas que já pensam como eu, que elas não estão sozinhas.” (autor não identificado)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O intempestivo arrebatamento da minha perua ou a inveja da máquina

Era o último sábado de julho do ano de 2007; um luminoso e agradável dia do inverno carioca. Por volta das onze e meia da manhã. Resolvi levar minha perua para uma "geral", em um posto de serviços próximo a minha residência. Então começou minha agonia. 

Estacionada, com o para–choque dianteiro coladinho no da minha perua – bem de frente, estava lá, imponente, luzidia como uma baixela de prata argentina, uma outra perua. Tratava-se, não se impressionem, de uma francesinha de sangue azul, uma Renault Mégane Sport Tourer, motor turbo de 2 litros, com 180 cv de potência.

O motorista, posso até apostar três mariolas, não devia ser o dono de tamanha exuberância sobre rodas. Não; um proprietário de joia tão cintilante não seria tão insensato a ponto de estacionar seu patrimônio numa rua secundária e esburacada do subúrbio carioca, com o chão enfeitadinho de cocô de cachorro e lixo – muito lixo, a não ser que premido por coisa incontrastável.

Alguns minutos antes, um gato faminto tinha atacado um saco de lixo contendo resíduos de peixe espalhando os detritos fedorentos juntinhos à Mégane e observando, desconfiado, a calçada, para não sujar meus sapatos, percebi que uma das rodas da francesa, uma liga leve diamantada, faiscante, já estava batizada por algum vira-latas – cães vadios adoram delimitar seus territórios, balizando-os em rodas de carros (novos, é claro, nas do meu, que é velho, eles não vertem sua urina malcheirosa).

Pensei: o imprudente motorista vai levar um susto quando vier pegar a suntuosidade sobre rodas. Mas quem foi tomado de intenso sobressalto não foi o incauto, fui eu. O diabo, ou será a diaba, da minha perua se recusou terminantemente a funcionar com um mínimo de decência.

Quando liguei a ignição foi um ranger danado de correias, eixos, bielas e pistões. Na primeira tentativa, nada, só aquele rilhar de mal prenúncio. Na segunda tentativa, nova rilhação, só que desta vez mais zangada. Outra tentativa – pensei, a última, se não pegar, largo essa coisa velha e volto para os meus discos de vinil. 

Então foi um mhan nham nham nham lerdo, o que era sinal de aborrecimento da bateria. Outro mhan nham nham nham seguido de um pof pof assustado e logo a seguir um tranqüilizador vrom vrom vrom consoante com minhas exaltadas compressões no pedal do acelerador. Aí tirei o pé e seguiu-se o velho conhecido tuh tuh tuh tuh entressachado por um ou outro pof pof.

Meu coração, que já apresentava uma leve taquicardia, serenou. Fixei o cinto de segurança, liguei o rádio, previamente sintonizado na CBN, engrenei a primeira e acelerei suavemente, todo respeitoso. Aí veio o pânico. Foi uma desconjuntada sinfonia de tuhhh tuhhh, vrommm, pooof pooof pooof, tummm tummm, tuhhh tuhhh, pooof pooof pooof, tummm e depois de um solavanco atrevido e desrespeitoso, a perua danada "morreu".

Voltaram as palpitações no peito e um suor frio se anunciou no meu rosto esfogueado. Era já uma pontinha de exasperação, uma pontinha de nada. Dei umas quatro respiradas profundas e parti para a derradeira tentativa. A resposta da maldita perua foi um debochado mhan nham nham nham indolente e preguiçoso, que denotava toda sua insubmissão ao dono, todo seu escárnio.

Desisti de dialogar com aquela máquina insensível, insurgente, sediciosa, que naquele momento devia sim era estar acometida de uma impolida crise de inveja da Mégane Sport Tourer, que ainda há pouco estava, majestosa, tão pertinho dela. Se bem que, reconheço, ultimamente não a tenho tratado como ela merece. Pensando bem, semana que vem vou mandar fazer aquelas intervenções nos pára-choques e nos espelhos retrivisores, que ela tanto tem reclamado.

Ainda pensei em convocar a presença de Zenóbio Cará, o mecânico mais respeitado da região, mas recuei, lembrando da placa de papelão, escrita com "pincél pilot", que milagrosamente continua presa por um pedaço de barbante roto no portão de madeira da sua oficina, na rua de baixo.

Na placa está escrito, pelo próprio Cará "Não mecho nos carro com engessão, só nos carburado" (a vírgula é uma intromissãozinha minha na frase de Zenóbio).

sábado, 28 de maio de 2016

Pau que dá em Chico NÃO dá em Francisco


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Memória: 52 anos da morte de Jawaharlal Nehru


A Índia dos últimos quinze anos é um país em franco desenvolvimento. Se considerarmos as projeções contidas no "Building Better Global Economic Brics", relatório elaborado pela equipe do economista norte-americano Jim O’Neill, em 2050 o país asiático será a terceira economia do mundo, atrás apenas da China, que será a 1ª, e dos Estados Unidos. Ainda segundo o relatório, considerando o bloco econômico avaliado, a Índia será o grande pólo industrial e de tecnologia.

Jawaharlal Nehru nasceu em Allahabad no dia 14 de novembro de 1889. Concluiu seus estudos superiores na Universidade de Cambridge e retornou à terra natal para exercer a advocacia, mas logo ingressou na política, encaminhado por seu pai, Motilal Nehru, que era dirigente do congresso índiano.Tinha grandes laços de amizade com Gandhi e com este partilhava o princípio de não- agressão como modo revolucionário (Satyagraha* ou "caminho da verdade").

Nehru foi um atuante primeiro-ministro da Índia desde sua independência, em 15 de agosto de 1947, até o dia de sua morte, em 27 de maio de 1964.

Jawaharlal Nehru foi um grande líder socialista e planejou um projeto desenvolvimentista onde se aplicaria o que de melhor houvesse no capitalismo associado ao que de melhor houvesse no socialismo. Sonhava com uma índia socialista, rica e moderna. Nehru também era apaixonado pelas crianças pelas quais era chamado de Chacha** Nehru.
Além de político de primeira grandeza, sendo notabilizado como grande estadista, Pandit*** Nehru, como também era chamado pelo povo, tinha uma visão muito moderna de desenvolvimento, tanto que dedicou parte substancial de seus esforços em projetos que visavam o desenvolvimento industrial e a modernização da Índia.

Notas:
* Termo sânscrito: santya=verdade e graha= firmeza, constância.
** Em pesquisa (provavelmente significa tio mais novo por parte de pai).
*** Termo sânscrito: professor, estudioso.

"Hoje, vemos a Índia como um local onde o futuro está a ser moldado: uma terra de indivíduos brilhantes, de novas tecnologias, investigação, inovação e indústrias de ponta. É esta a Índia que eu gostaria de motivar para uma cooperação cada vez maior com Portugal."

Aníbal Cavaco Silva – Presidente de Portugal.

Decorridos mais de meio século, podemos constatar que as sementes plantadas pelo grande estadista germinaram e os frutos já começam a ser colhidos. 

Até 2050, se as projeções da equipe do economista Jim O’Neil estiverem corretas, estará consolidado o sonho de Nehru: uma Índia moderna rica e socialmente justa.

Menos de dois anos após seu falecimento, sua filha Indira Gandhi assumiu o cargo de primeira-ministra, substituindo a Lal Bahadur Shastri, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe do governo na Índia. Indira governou o país em duas ocasiões: entre 1966 e 1977 e entre 1980 e 1984.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A verdade na poesia de Fausto Wolff

Talvez tenha sido Fausto Wolff o mais legítimo dos socialistas nascidos por aqui, nessas terras tropicais que já foi Pindorama.


Classifica-lo como homem de esquerda, comunista, soa incompleto, vago demais. O socialismo puro, essencial, brotava de cada linha escrita pelo Lobo e seu pensamento livre sempre açoitava os coercivos, os ladravazes, os ignavos e toda canalha que espolia o cidadão.

Em um dos mais expressivos textos para sua coluna do Jornal do Brasil, escreveu: “Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos” e ainda “Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas 
imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar".



Certa vez, talvez tenha sido mesmo no dia do lançamento de O Pacto de Wolffembüttel e a Recriação do Homem, ouvi dele a frase “há que se indignar...” e essa indignação sublime sempre marcou, de forma indelével, seu ideário socialista.

Antes que algum afoito dê aquele sorriso irônico, lagarteado, e questione – Sim, mas afinal o que esse cara construiu? Fez alguma escola, um hospital, uma pracinha talvez num subúrbio remoto? – eu me antecipo e já respondo: Sua grande obra foi o seu pensamento.



Mas por que estou falando sobre o saudoso Lobo? Nestes tempos em que vemos a Câmara dos Deputados e o Senado Federal com nauseantes emanações sulfídricas e a velha cara-de-pau das aves de rapina que lá voejam e grasnam, cai como uma luva, para reflexão de todos, a poesia que integra a parte I de A Recriação do Homem.

A Recriação do Homem 



Digo para a minha filhinha:
Aque senhor bem-vestido
Dentro do Mercedes cinza,
Ao lado da moça loura
Só hoje, com muita calma
Assassinou mais de
Quinhentas crianças,
Exterminou mais de
Trezentos velhinhos,
Levou ao suicídio
Cinqüenta pais de família,
Isso, pela manhã.
À tarde prostituiu mais de
Duzentas mocinhas,
Transformou em criminosos
Quatrocentos operários;
Expulsou de suas terras
Quase mil agricultores.
Antes de encerrar o expediente
Deu entrevista coletiva,
Enfatizando a necessidade
De moralizar o país.


Aquele senhor elegante,
Barriga proeminente
E sorriso irresponsável
Para fazer tudo isso
Ganha um alto salário
Pago por todos nós.
É nosso representante
No Congresso nacional.
Não tem alma
Nem escrúpulos,
Não sabe o que é caráter,
Nunca derramou uma lágrima.
Este monstro nós criamos
Em nome da democracia
Para nos tiranizar.
Esta é a tradição
Da nossa tribo
Que ama os seus algozes.
Castigo de um Deus Comediante
Que nos deu como modelo
Justamente o opressor,
Aquele filho-da-puta
Que todos almejam ser.

Mata-lo não adianta,
Pois tem filhos, netos, capangas
Que depois de se vingarem
Seu trabalho continuarão.
– Que pesadelo terrível,
Este que estás contando –
Exclama a minha filhinha.
Os porcos comandam o mundo
E não há nada a fazer
Senão ganhar um diploma e
Em porcos nos transformarmos.
Aquela água clarinha,
Do lago cor de cristal,
Ninguém quer,
Para nada presta
É o lugar onde o sistema
Põe os loucos para delirar.
O sonho de liberdade
Custa a alma e causa dor.
Transforma o poeta socialista
Num porquinho ditador.

Nada mais apropriado para os dias que estamos vivendo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quase tudo ou quase nada?

− É quase nada doutor, um tantinho à toa, coisa muito pouca, somente o suficiente.

Ismênio falava, de cócoras, sem olhar para o alto, enquanto com uma pequena pá de jardineiro, novinha em folha, ajeitava um pé de lírio trombeta, que teimava em não se desenvolver para floração.

− Eita plantinha difícil de se ajeitar, tá me dando uma dor de cabeça dos infernos. Se não florir para o finzinho de outubro, dona Abigail me mata, ela tá contando com esse lírio de finados para enfeitar o túmulo do falecido doutor Baraúna.

− Repare bem Ismênio, não é que eu seja insensível, mas você me diz que é quase nada, quando o que me pede é quase tudo.

O preto, ainda de cócoras, sentiu que a coisa ia complicar e resolveu ganhar tempo na palestra.

− Lá por São Paulo o pessoal chama essa planta de lírio japonês, apesar da sobrinha de minha ex-patroa, que é "engenheira de plantas" ter me dito que "lírio japonês é uma ova", que "a planta é originária mesmo é da China", que "o povo daqui é abestalhado, pensa que japonês e chinês é tudo a mesma coisa".

"Ignorância mênio" − ela só me chama assim, "muita ignorância desse poviléu", dizia dona Carlotinha, que estudou as plantas na faculdade.

O interlocutor falou, ainda calmo:

− Olhe bem Ismênio, você tem que entender que a coisa funciona um pouco diferente do que você pensa. Você vem e fala: “quase nada doutor”; porém esse seu quase nada é uma montoeira danada e eu considero que o que você quer mesmo é quase tudo.

O mulato já estava arrependido de ter tocado naquele assunto assim sem uma preparaçãozinha, sem uma lamuria já acertada na cabeça, ainda mais numa segunda feira, dia em que o deputado acordava com o focinho inchado de tanto, no domingo, comer cuscuz de tapioca, beber cerveja e se descabelar com mais uma atuação desastrosa do Atlético de Alagoinhas. Mas ele era insistente e ladino. Decidiu falar de seus conhecimentos sobre os lírios, apesar de não ser jardineiro, como ele mesmo dizia.

− Não sou jardineiro, sou apenas "curioso". Jardineiro mesmo é o Plácido, aquele sarará filho do dono do "ferro-velho", aquele mesmo que estudou até a metade do ginasial em Jequié e agora cuida dos jardins da casa do doutor Cravinho.

Agora sentado no chão, Ismênio dedicava-se a arrancar um matinho mal nascido que já se assanhava por entre os cravos amarelos. Dissimulando, olhar fixo nas folhinhas do capim áspero que tirava lentamente da terra e amontoava na calçadinha de pedra, disse:

Eu já vi uns lírios trombeta amarelos. Foi lá em Santarém, eu era rapazola, foi na época da inauguração da Rádio Clube e um primo meu, de nome Ananias Muniz, ia ser o locutor das notícias, mas se engasgou com um pedaço de osso de pato, bem na véspera, fez um lanho danado na goela e ficou sem falar uns seis meses, até penicilina teve que tomar. Pois bem, dona Carlotinha, a "engenheira das plantas", me disse que são brugmansias, nunca mais esqueci este nome: brugmansias; eu vi delas lá em Santarém, vi pencas delas. Dona Carlotinha me disse ainda, que lá na faculdade que ela estudou, no Rio de Janeiro, se comentava que aquela moça do cinema americano, esqueci o nome agora, que fez o filme do tal mágico, que tinha até homem de lata, morreu por causa de uma overdose danada de chá de lírio, mas ela disse também que nunca se soube se foi verdade ou não, as pessoas falam...

E Ismênio suava de pingar, pensando em como ganhar mais tempo, vencer por cansaço o patrão. Continuou com o lero-lero.

− Viu, doutor: dona Noélia, que tem uma ciumeira danada das plantas dela, agora anda toda da satisfeita com as begônias que nunca floriram tanto. Obra de quem? De quem? Pois eu lhe digo doutor: obra de Plácido. E tem mais doutor, ela já até pediu para o doutor Cravinho aumentar um tantinho o salário do garoto. Ela diz assim: Dá cravinho, dá o aumento pra ele, o menino tem as mãos de fada para cuidar das begônias, elas estão florindo que são uma beleza.

Já com o sol acalorando, assim por volta das nove e meia, o deputado Nestor Avelar Pederneiras, com sua indefectível calça de pijama azulzinha cor do céu já suadinha no gavião, andando a volta de Ismênio, se impacientava com o bla blá blá monocórdio do mulato.

− Preste bem atenção Ismênio: já estou ficando agoniado com essa baboseira toda de lírios, begônias e brugmansias. Eu lá quero saber das plantas da mulher do Cravinho. E esse tal de homem mágico de lata de filme americano, que diabo é isso? Vamos resolver logo essa situação desse seu quase nada, que daqui a pouquinho tenho que ir para a Câmara.

O “curioso” da jardinagem se encolheu todinho, quase entrou terra do canteiro adentro, o nariz de funga-funga começou a escorrer − alergia do “poli”, dizia ele.

− Eu gosto muito de você, tiçãozinho, seu pai serviu bem ao meu pai na pistolagem, mas você não deu para a coisa. Abigail gosta de você, porque acha que as plantas são bem cuidadas, eu vou deixando você por aqui, porque para outras coisas você não dá mesmo, e eu não posso lhe mandar para a rua assim sem mais nem menos, em respeito pelos serviços de seu pai ao meu velho finado. Mas lhe digo uma coisa: vou lhe dar cinqüenta e ficamos acertados. Sem chororô, viu.

− Mas doutor Nestor, cinqüenta é quase nada.

− Então, que é isso agora? Que ladainha é essa Ismênio, hem? Não foi você mesmo que disse que o que você queria era quase nada? Estou lhe dando o quase nada que pediu, e observe bem, para mim essa nota de cinqüenta, que lhe dou, é quase tudo. É pegar ou largar que eu tenho que picar a mula. Esse calor já está fazendo escorrer suor por entre minhas pernas, e isso me deixa nervoso. Pegue aí e não esqueça de agradecer, preto ingrato.

Ismênio pegou a nota novinha da silva e enquanto a metia no bolso o deputado Nestor Avelar Pederneiras já ia dobrando o canteiro das tulipas lilases, balançando a bunda, muito grande dentro da calça do pijama, em rumo da casa recém pintadinha de rosa bebê. Pois então não ia nascer a primeira neta do doutor Nestor e de dona Abigail? A primeira filha de Heleninha com aquele engenheiro atolemado nascido lá em Cruz das Almas?

Mas isso já é uma outra novidade...

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O esquecido Belvedere do Grinfo

Procurando no google fotos de Gordines, DKW’s, Fissores, Simcas e outros modelos nacionais da década de sessenta, me deparei com uma verdadeira preciosidade, cuja lembrança, confesso, já estava arquivada em algum remoto compartimento da minha memória: O Belvedere do Grinfo, na Rodovia Rio-Petrópolis.

Lembrei-me então que na minha adolescência, lá pelos anos sessenta, quando ia à Petrópolis com os amigos, na volta parávamos no mirante para comermos os deliciosos salgadinhos que eram vendidos numa agradável lanchonete que havia no local. Naquela época a edificação estava em muito bom estado, com perfeito funcionamento da fonte trípice-circular que faz parte do conjunto arquitetônico. Era magnífico olhar em direção à baixada de Xerém e observar a tarde despedindo-se, enquanto às nossas costas a noite se anunciava.

Lembrei-me ainda que entre o final da década de setenta e o início da de oitenta, ia com meu fusca assistir jogos do Bangu contra o Serrano no Estádio Atílio Marotti e na volta observava da estrada o Mirante, já decadente.

Segundo pesquisei, a área circundante e o conjunto arquitetônico estão hoje, como toda a Rodovia, sob a administração da CONCER, que já teria declarado ter intenção de executar obras de melhoramento para revitalização do local.

Meu esquecimento do mirante foi tão profundo, que quando do tão divulgado anúncio do projeto de construção do Museu de Arte Contemporânea de Niterói e mais tarde quando da sua inauguração, não me chamou atenção a enorme semelhança do MAC com o charmoso Belvedere do Grinfo, nome emprestado da região de Petrópolis onde foi construído.

Oscar Niemeyer, em sua centenária existência, provavelmente deve ter passado muitas vezes pelo local, Se parou ou não no mirante não sei. Se admirou a leveza quase volátil de sua arquitetura também não sei. O que me fascina é a possibilidade de que ao fluir das mãos do arquiteto os traços essenciais do projeto do MAC, uma abismal inspiração o houvesse tocado. A mesma inspiração que provavelmente também o tocou quando idealizou o Memorial da América Latina, com aquela mão sangrando, que lembra em muito a Open Hand Sculpture, em Chandigarh, na India, concebida por Le Corbusier, do qual Niemeyer foi discípulo.

Entendo que o museu de Niterói seja apenas um projeto a mais na fabulosa obra do arquiteto brasileiro. Mas é um projeto importante, não se pode negar. Diante disso, seria um belo presente para nosso patrimônio arquitetônico e cultural se os herdeiros de Niemeyer ou a Fundação que leva o seu nome, liderassem um movimento para uma plena recuperação do Belvedere do Grinfo, devolvendo-lhe a beleza original e transformando-o num centro cultural para preservação da memória do tradicional caminho do Rio de Janeiro para Petrópolis.
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Fotos:


Belvedere do Grinfo - Projeto: Não identificado.
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Open Hand Sculpture - Projeto: Le Corbusier.
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Museu de Arte Contemporânea - Projeto: Oscar Niemeyer.
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Memorial da América Latina - Projeto: Oscar Niemeyer.
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domingo, 15 de maio de 2016

É Gogol...

Sátira faceciosa inspirada no clássico conto de Nicolau Gogol, O Nariz (1936)

Esse foi o dia exato; um domingo, 20 de fevereiro de 1972, quando o Sr. Ivan Capistrano Pederneiras, barbeiro de profissão, morador na pacata Nossa Senhora dos Pobres Espíritos Penitentes, pequeno povoado situado no Noroeste de Goiás (esse povoado foi exterminado pelos "homens" em 1973, sob a alegação de "ser um local foco de comunistas safados"), leu o texto do russo.
Ivan barbeiro, como era conhecido no local, nasceu no bairro carioca de Irajá (logo no início da Segunda Guerra Mundial) e aos 32 anos parecia já um senhor de 50 (em 1972 um homem de 50 anos era considerado "velho").
Nascido num subúrbio carioca, o barbeiro era devoto fervoroso de São Jorge (o pai de Ivan havia sido bicheiro em Madureira, onde trabalhara para o lendário Natal, influenciou a devoção) e um torcedor fanático do América, o "mequinha carioca" (também influência do pai), cujos jogos acompanhava pelas poderosas ondas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Naquele distante domingo, no final do verão de 1972, Ivan barbeiro amargava um dia cinzento e chuvoso, que lhe trazia saudades profundas dos domingos de sol da sua infância, nos quais a família Capistrano Pederneiras se esbaldava nas cálidas areias da praia de Ramos. Sem ter nada para fazer (ou esperar), pois o dia do santo guerreiro (no qual ele fazia seu feriado particular e não trabalhava) seria somente em abril e o campeonato carioca só começaria, para o seu América, no próximo domingo, dia 27, o barbeiro resolveu dar uma arrumação do porão da lojinha anexa que havia recentemente alugado, tencionando ampliar sua barbearia para três cadeiras.
Mexe daqui, mexe dali, arruma isso, empilha aquilo e Dona Filozinha (Philomenna Maria Nepobuceno Pederneiras), esposa querida, já havia chamado para o almoço de cardápio simples, acertado pela manhã, durante o café: feijão, arroz, farofa, bife fininho de carne de cavalo (acebolado), salada de pepino e, para sobremesa, o indefectível Romeu e Julieta. Mas o mestre da tesoura e da navalha queria concluir a arrumação antes do tradicional banho que antecedia, sempre, suas simples, porém faustas refeições, que ele não era homem de deixar nada inconcluso. Pediu então a sua preciosa Filozinha que esperasse um tiquinho só, que ele já subiria.
Quando ajeitava uns objetos inservíveis depositados sobre uma pequena escrivaninha deparou-se com uma velha pasta preta feita de couro de porco e que não tinha fecho, sendo fechada por dois laços, um em cada lado, de cadarço também preto, totalmente coberta com o pó de décadas. Com o auxílio de um espanador e de uma flanela livrou a pasta do pó e tomado de uma até então desconhecida curiosidade, desatou, afobado, os dois laçarotes que a fechava e retirou do seu interior várias páginas de papel já amareladas pelo tempo (porém intactas), todas datilografadas.
Na primeira folha pode ler na parte superior TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS DE O NARIZ e logo abaixo, PRECIOSA OBRA DA LITERATURA RUSSA. No meio da folha lia-se, AUTOR: NICOLAU GOGOL e no rodapé, TRADUÇÃO FEITA NO OUTONO DE 1922. Não havia qualquer menção ao autor daquele trabalho.
O barbeiro recolocou as folhas na pasta, refez os laços, colocou-a sob o braço, apagou as luzes do porão, subiu a frágil escadinha e dirigiu-se à parte do imóvel que servia como residência para o casal Pederneiras.
Após a sesta, já passava das três da tarde, havia cessado a chuva e a temperatura era agradável, soprando uma brisa fresca que vinha lá dos lados do Rio Pacanu. Ivan pegou a pasta recém descoberta e foi para a varandinha. Sentando-se na velha poltroninha de vime decide-se por descobrir que história era aquela, de um russo que tinha o mesmo nome do seu sogro.
Meses depois, na primavera, já esquecida do rigoroso luto, a viúva Filozinha repetia pela milésima vez, para sua vizinha goiana, uma história muito louca.
Soubesse então a tal vizinha que naquele fatídico verão seu amado marido tinha ido para a varandinha com uma coisa preta debaixo do braço, ficou lendo um monte de papel velho até altas horas; por volta da meia noite saiu para a rua e desde então nunca mais parou de andar, nem para saciar a sede, nem para saciar a fome, nem para descansar suas finas pernas. Enlouqueceu o barbeiro, diziam uns; é feitiço, diziam outros. Alguns maledicentes diziam que teria sido uma briga feroz entre marido e mulher, logo depois do almoço de domingo, quando discutiram devido à grossura do bife. Um outro, bem íntimo da família, dizia que foi uma promessa que o finado fizera para São Jorge, obtivera a graça, mas não pagara (por pura avareza) o prometido. Mas tudo eram especulações.
Soubesse então a tal vizinha que eles se amavam e nunca brigavam por nadinha desse mundo de nosso senhor. Soubesse ainda que desde o dia em que saíra a caminhar sem rumo até o dia 23 abril, dia do seu santo protetor, quando caiu morto à beira de um riacho de águas cristalinas, onde nadavam, expertos, milhares de lambaris, seu querido marido, afirmava a viúva com as lágrimas caindo-lhe em cascata pelo pálido rosto, tinha sido acometido de uma maléfica afrenia, após ter lido o que estava escrito naquelas páginas amareladas; tinha certeza disso.
Anos depois, um pesquisador de certa Universidade Alemã, que andava por Goiás estudando a influência do azeite de pequi nos versos de Cora Coralina, soube da história e foi procurar a viúva, que já havia começado vida nova, casando-se com um búlgaro, dono do depósito de gás engarrafado e da quitanda do povoado.
Dona Filozinha, agora muito coradinha e usando um vestido curtinho e decotado, que o búlgaro já gostava de uma mulher bem "putchinha" (como pronunciava), entregou a pasta ao alemão, que após abri-la e ler, ainda em pé, os primeiros parágrafos da tradução, disse rindo e com seu sotaque carregado: É Gogol! Está explicada a atitude do seu marido. Agradeceu, devolveu a pasta e se foi, para continuar a investigar o azeite.”

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Mesmo sabendo que minha voz não tinha alcance, eu avisei!

Hoje, 12 de maio de 2016, estamos vendo a Presidente da República ter que deixar a presidência do país (mesmo que temporariamente - 180 dias), pela vontade popular, através dos seus representantes nas duas câmaras do Parlamento Brasileiro

Em 26 de setembro de 2010, uma semana antes das Eleições Gerais de 2010, publiquei em um antigo blog o texto que abaixo segue. Eu sabia que minha voz não tinha alcance para chegar aos eleitores e mesmo se chegasse, diante de tanta euforia, seria ignorada. Mas eu tinha minhas convicções, dentro de mim havia crescido uma desconfiança muito grande sobre a capacidade da candidata da situação em governar um país tão complexo como o Brasil; então eu resolvi publicar o meu pensamento. Acho que fiz bem, porque hoje me vem a certeza de que minhas desconfianças não eram infundamentadas.

Obediência à verdade como atributo fundamental


No "Teatro Grego" as personas eram máscaras usadas pelos atores que, além de lhes dar a aparência de sua representação, potenciava-lhes a voz para que fossem melhor ouvidos.

Persona também é o termo empregado "para descrever as versões de si mesmo que todos os indivíduos possuem". O indivíduo opta por uma forma de proceder que esteja em consonância com a aparência que pretenda retratar ao interatuar com outros indivíduos.

O significado de persona é máscara, porém não uma máscara formal, mas sim uma máscara social.

A candidata à presidência da república, que lidera as pesquisas de intenção de votos, tem em sua história recente um rol de acontecimentos que explicam por si só como ela lida desembaraçadamente com suas máscaras.

Dos desmentidos não sustentáveis nos episódios com a ex-secretária da Receita Federal, Lina Maria Vieira e com a ex-diretora da ANAC, Denise Abreu, e ainda na questão do relatório (dossiê) sobre as despesas do ex-presidente Fernando Henrique e da sua esposa, até o caso do inexistente mestrado em teoria econômica pela Unicamp, que aparecia no site da Casa Civil, a candidata tem se revelado hábil na arte de dissimular.

É admirável sua desenvoltura para encarnar todas as traduções que ela faz de si própria e somente uma destas traduções pode explicar a utilização, em seu site, de uma foto da atriz Norma Bengell na passeata dos cem mil, acontecida em junho de 1968, para enriquecer uma diminuta trajetória política.

Recentemente, com relação ao escândalo que envolve diretamente sua sucessora na Casa Civil, a candidata assume uma postura de quem, segundo ela mesma, não participou em momento algum do processo de nomeação de sua secretária-executiva, atribuindo tudo à uma decisão do presidente da república, quando qualquer cidadão que esteja minimamente informado sobre o assunto, sabe que a história não é bem essa.



Sobre a pessoa do presidente da república não pode pairar qualquer dúvida quanto ao seu irredutível compromisso com a verdade, sob pena de torná-lo desacreditado e dessa forma incompetente para exercer a função.

A ocasião é propícia para uma profunda reflexão de todos nós, eleitores investidos da responsabilidade de eleger nossos governantes. Não podemos e não devemos permitir que candidatos que já demonstraram pendor em manipular e subverter a verdade, se elejam e nos governem.

Sempre é sensato considerarmos o pensamento de Jacques Bénigne Bossuet, teólogo francês que viveu no século XVII e foi um profundo estudioso do comportamento humano.

"A ambição é, entre todas as paixões humanas, a mais ferina nas suas aspirações e a mais desenfreada nas suas cobiças e, todavia, a mais astuta no intento e a mais ardilosa nos planos."

Também Nicolau Maquiavel, diplomata, historiador e poeta italiano, tido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, nos fala sobre a ambição:

"Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela."

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Mazelas do Brasil, ontem e hoje

O Geólogo paranaense Ivan de Araújo Simões (1935-2001) em seu interessante Baião Semita (Garamond / 2002) – primeira obra do projeto editorial do Centro Monteiro Lobato, nos conta que um político, amigo de outro com grande influência no governo, foi nomeado para um importante cargo técnico na Petrobrás – esta mesmo, que hoje foi assaltada pelos "companheiros" e seus amigos.

Escreve ivan Simões:

“Ao assumir o posto, assistiu a uma apresentação sobre o andamento dos trabalhos de desenvolvimento dos campos de petróleo da Bacia de Campos, cuja produção se estava iniciando.
O apresentador explicava que o desenvolvimento da bacia seria por regiões, denominadas pólos, dentre os quais um dos mais importantes era o Pólo Nordeste. Ao ouvir a referência, o nobre político, que estivera provavelmente dormindo no inicio da apresentação (aliás algo comum entre alguns executivos da época). Ao ouvir as palavras ‘pólo nordeste’ e ‘desenvolvimento’, interrompeu entusiasmado na apresentação e, de sua tribuna (perdão, poltrona), solenemente proclamou:
– Regozijo-me ao ver que a Petrobrás, como eu, preocupa-se com a situação do sofrido povo nordestino, que sempre viveu à margem do progresso, do qual somente desfrutam os habitantes do Sul e do Sudeste de nossa pátria. Vocês podem contar com todo o meu apoio para projetos dessa profundidade (realmente o projeto envolvia água profundas).
Depois de alguns minutos de falação política, provavelmente alertado por algum assessor, deixou a apresentação prosseguir e voltou ao sono, agora dos mais justos, embalado provavelmente por sonhos com os relevantes projetos sociais que poderia empreender em prol do esquecido Nordeste, também um destacado pólo – de pobreza...”.

O competente geólogo e perspicaz observador do cotidiano, captou neste episódio duas pragas que corroem a administração pública brasileira: A nefasta nomeação de "companheiros", amigos e afins para cargos que deveriam ser preenchidos por exclusiva competência técnica e a execrável exploração política das questões que há muito envolvem o Nordeste e outras regiões miseráveis do país.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Sabedoria popular

As frases de pára-choques ou "lameiras" de caminhões há muito pertencem ao folclore brasileiro, o que se justifica por possuírem os quatro principais indicativos ordenadores de um evento folclórico: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade e funcionalidade. 
O autor pioneiro, possuidor do veículo de transporte, intuiu sua ambivalência: possuía também um veículo de comunicação. Daí a escrever e expor sua mensagem foi só o tempo de conseguir tinta e pincel.

As mensagens, não obstante sua origem nas camadas populares, têm o significante perfeito, mesmo quando se apresenta chulo ou fazendo uso de licenciosidades como: o número 20 sendo empregado no lugar de “vim te ...” ou o 70 substituindo “se tenta ...”.

Postada no blog Amo Caminhões, uma foto mostra uma dessas frases (VOTE nas PUTAS... PORQUE NOS FILHOS NÃO DEU CERTO*), estampada na "lameira" do caminhão placa BYC-3184, que traduz de forma simples, clara e concisa o sentimento de indignação da sociedade, diante do estado de deterioração das instituições políticas e da própria classe política, que, convenhamos, nunca foi lá essas coisas. Provavelmente o autor da frase não é um estudioso da política, mas é sensível aos acontecimentos e através da sua mensagem repercute o pensamento da sociedade.

Bertrand Arthur Willian Russell, nunca viveu no Brasil, nunca possuiu um caminhão, tampouco dirigiu um. No entanto o Nobel de Literatura de 1950, nos deixou um pensamento que mesmo nascido em outro contexto, por sua universalidade, expressa em sua essência o mesmo sentimento do anônimo caminhoneiro brasileiro.

“Por que cometer erros antigos se há tantos erros novos a escolher?”

Também a sabedoria chinesa nos lega um pensamento de autor desconhecido, talvez milenar, que da mesma forma que o do galês, está em consonância com a mensagem que se lê na foto.

“Se uma pessoa te enganar ela merece uma surra, se esta mesma pessoa voltar a te enganar quem merece a surra é tu”

Nas últimas eleições nossos olhos e ouvidos ficaram fechados e nossos cérebros permaneceram entorpecidos. Para as que virão, é bom que fiquemos atentos às manifestações populares; elas são sábias.

* Na frase pintada na lameira a letra R aparece de forma invertida. 

domingo, 8 de maio de 2016

O Absolutismo e a relação do político brasileiro com o poder

Há pouco mais de 5 anos publiquei esse texto em um antigo blog. Relendo-o hoje, me pareceu muito atual.

"O Brasil foi descoberto num período em que Portugal e os principais países europeus viviam sob o absolutismo monárquico. Não obstante ter surgido como nação no ocaso dessas monarquias absolutistas, o relacionamento íntimo que o país teve com a corte portuguesa o fez herdar o que de mais tenebroso havia no regime absolutista português: a relação promíscua com o Poder. 

A alta burguesia brasileira adotou, por lhe ser extremamente conveniente, essa aberração e manteve o que podemos chamar servilismo compensatório, onde homens servem ao Poder e dele se servem. 

Portugal foi o país que inaugurou a era dos regimes absolutistas na Europa, em 1385 com coroação de D. João I, o "Mestre de Aviz”, que usurpou o trono do outro D. João I, o "de Castela". Também foi onde o Absolutismo teve vida mais longa, sobrevivendo até a Constituição de 1838 embora seu declínio comece com a Constituição de 1822, resultado de Revolução Liberal de 1820. 

O privilégio era a base social do absolutismo. A pequena casta privilegiada pelo rei tinha, entre outras regalias, acesso exclusivo a cargos e tribunais e penas especiais, muito parecidos com os privilégios atuais da nossa classe política. 

Quanto mais próximo e aliado ao governo central é um político, mais privilégios ele tem. Alguns partidos têm tradição de gravitar em torno do Poder e alguns de seus membros mais conhecidos movem-se com agilidade nesse charco, porquanto são acostumados na troca de legenda, sempre que as vantagens (leia-se privilégios) se apresentam. 

O Poder Central depende da aliança com tais partidos e apóia de forma indecomponível todos os seus “caciques”; estes e seus pares sabem disso e se servem do poder com a voracidade de famintos diante de uma mesa farta. Tudo é permitido; não há punições; histórias medonhas se repetem na Câmara, no Senado, nas casas legislativas estaduais e municipais e nos executivos dos três níveis; rios de dinheiro correm por uma rede subterrânea de destino duvidoso; o país se esvai numa hemorragia que não há torniquete que estanque. 

Como nos tempos do absolutismo, os membros dessa pequena casta de privilegiados se locupletam a custa do sacrifício de quase toda população. 

A democracia, pelo menos como a conhecemos hoje, cá entre nós, não se sustenta por si só e é um sistema falido, só não desmoronando devido à alta dose de tolerância da sociedade constituída. Praticada da forma que é, tem serventia mesmo é para a perpetuação desses episódios, escritos pelo que há de mais expoente na vileza nacional."

terça-feira, 3 de maio de 2016

Os veículos de informação e a formação da sociedade

Há quase dez anos o inesquecível Fausto Wolf, com sua apurada sensibilidade que lhe permitia ter uma ampla e crítica visão da nossa sociedade, escreveu em sua coluna do tradicional Caderno B (Figuras do B) do Jornal do Brasil o texto titulado “Queremos Pão e Circo”, claro e incisivo; um indignado desabafo de um nobre coração socialista.

Dois trechos deveriam motivar reflexões:

"Uma coisa que aprendi de cara: tudo aquilo que era vendido aos pobres era de péssima qualidade. Camisas, calças, meias, cuecas, rasgavam e desbotavam com incrível facilidade.”

“Neste sentido – não houvessem os meios de comunicação imbecilizado a maior parte do país – há muito tempo já teríamos nos revoltado e, em vez de esmola, exigido terra, teto, comida, escola, saúde, transporte e emprego para que um dia todos possam gozar das riquezas do paraíso.”

Naquela época eram as peças do vestuário, hoje temos além de roupas ordinárias também informação pífia e sem qualquer substância.Tomando como exemplo apenas os jornais de considerável circulação na cidade do Rio de Janeiro, o que podemos observar, principalmente com relação aos diários cujos leitores estão situados nas camadas mais desinformadas da população, é que estes veículos tratam negligentemente a informação, quanto esta deveria ser uma efetiva fonte de subsídios para formação de opinião.

Aqui, em nossa cidade, temos hoje um quadro relativo aos jornais de circulação diária, que nos apresenta somente um veículo com informação de razoável qualidade e cerca de quatro com informação de qualidade duvidosa.

Não é difícil observar que, dos cariocas que cultivam o hábito de ler jornais, apenas uma quarta parte (aqueles compram o jornal de melhor qualidade editorial, O Globo) têm acesso à informação com melhor padrão de qualidade. Nestes jornais, tanto pela qualidade dos seus colunistas e articulistas, quanto pelo maior zelo na apuração e na divulgação do texto noticioso, os leitores encontram material razoavelmente satisfatório para melhor qualificar seu senso crítico.

Os três quartos restantes, ou por terem baixo poder aquisitivo ou por falta de esclarecimento, compram os produtos mais baratos – O Dia, Extra, Meia Hora e Expresso – e recebem informação de baixo padrão de qualidade. Nesses diários o tripé de sustentação é formado pelo noticiário policial, pelo noticiário esportivo, e pela divulgação de escândalos e fofocas envolvendo pessoas do mundo político, artístico e esportivo. Trata-se de conteúdo reles, desprovido de qualquer valor que possa repercutir positivamente para formação de um espírito mais crítico nas camadas sociais mais sujeitas a manipulação por parte do opressor poder político.

Os poderosos empresários da comunicação enriquecem vendendo porcaria para quem só pode pagar pouco por um jornal. Fazem um jogo triangular: Enriquecem, mantém o povo alienado e ainda obtêm a gratidão – moeda de troca – dos políticos.